
Também conhecida como riquetsiose canina, febre hemorrágica canina, tifo canino, pancitopenia canina tripical, doença dos cães rastreadores e, popularmente, como “doença do carrapato”, a erliquiose canina é uma importante moléstia infecciosa; que ocorre o ano todo no Brasil. Além dos cães, outras espécies como eqüinos, bovinos, ovinos, felinos e o homem também podem adquirir a infecção. Pouco comentada, porém conhecida há anos, a erliquiose canina foi descrita pela primeira vez em 1935 e, desde então, ficou conhecida mundialmente.
Como o próprio nome da doença diz, o agente que armazena (reservatório) e transmite (vetor) a doença é o carrapato-marrom, conhecido por Rhipicephalus sanguineus. Na verdade, o carrapato infectado transmite microorganismos do gênero Ehrlichia aos animais e homem – basta o carrapato estar infectado para ocorrer a infecção – este artrópode se infecta ao ingerir sangue contaminado de outros animais doentes e, assim sendo, ao parasitar outro cão (ou o homem) tem-se a continuidade do ciclo da doença. Portanto, se o carrapato não estiver contaminado com a bactéria, ele não transmitirá a doença! Vale salientar que os seres humanos não se infectam diretamente a partir de cães. É necessário o contato direto com os carrapatos! Outra forma de transmissão da doença em cães, porém menos comum, ocorre via transfusão sangüínea e até transplacentária.
Ao entrar em contato com o sangue do animal ou homem hospedeiros, a Ehrlichia procurará seu foco de “abrigo” e replicação nos linfonodos, fígado, baço e medula óssea atingindo células denominadas mononucleares, dentre elas as plaquetas – responsáveis estas pela coagulação sangüínea dentro dos vasos. Uma vez destruídas, o animal apresentará uma queda do número dessa células – laboratoriamente denominada trombocitopenia; e como alterações durante o exame físico podemos encontrar pontos ou machas hemorrágicas denominadas petéquias e/ou equimoses pelo corpo e mucosas; e até a ocorrência de hemorragias espontâneas nos casos mais graves.
Esta doença mostra-se variada clinicamente: diversos sintomas pouco específicos como perda de apetite, perda de peso, febre, falta de ar ou intolerância a exercícios, palidez, aumento do tamanho do fígado e baço, aumento generalizado dos linfonodos, e sinais neurológicos podem ocorrer. Alguns animais, por outro lado, podem mostrar-se assintomáticos; uns até vindo a apresentar algum sintoma após meses a anos do contato com o agente! Daí dá-se a classificação da doença em fases aguda, subclínica e crônica. De acordo com a fase de desenvolvimento da doença, teremos grande variação no que se diz respeito às alterações dos exames laboratoriais e do exame físico do animal.
A maioria das alterações desencadeadas pela doença são comprovadas através dos exames laboratoriais, como exame de sangue – onde visualizamos uma queda do número de plaquetas e leucócitos ou só o aumento dos leucócitos (células de defesa do organismo), anemia suave à severa, alterações nos valores das enzimas do fígado, aumento de proteínas no sangue, entre outros.
O diagnóstico pode ainda ser feito com base em testes sorológicos ou através da visualização do agente diretamente nas células sangüíneas – o que dependerá da fase clínica da doença, uma vez que sua identificação só é mais provável no estágio inicial; o que é difícil, já que muitas vezes a falta de apetite e febre passam desapercebidas pelos seus donos.
Uma vez diagnosticado, este animal deverá passar por um tratamento com antibióticos específicos e tratamento de suporte para animais muito debilitados; além do combate e controle do vetor - o carrapato! Isto pode ser alcançado mediante aplicações de carrapaticidas no animal e também no ambiente à base de piretróides.
O interessante notar é que os carrapatos são encontrados em cerca de 40% dos casos apenas!!! Por isso, nunca subestimem este vetor...houveram casos em que cães adoeceram...e foi encontrado, apenas, 1 pequenino carrapato...
Prevenir ainda é um dos melhores tratamentos.
Dras. Carolina D’Ambrosio e Barbara Hellebrekers